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Rear Window

No meu esconderijo do milésimo andar, espio noite e dia sua vida secreta…

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yanna
Rear Window

Sinto, ainda hoje, uma certa vergonha pela quantidade de tempo que demorei para assistir Janela Indiscreta. Janela Indiscreta (que título admirável!), o próprio título, já basta como motivo para assisti-lo. Além de que, não posso deixar de associar o título do filme à canção “Vítima”, de Rita Lee: “no meu esconderijo do milésimo andar, espio noite e dia sua vida secreta… sou vítima, vítima da sua janela indiscreta.” Acrescente-se a isso o fato de meu pai nutrir por esta obra e, de modo geral, pelo cinema de Hitchcock – uma fascinação muito grande, a ponto de conservá-la, ainda hoje, em seu pendrive, e teremos aí um primeiro indício do tamanho impacto da obra no ser humano. Diante de tais circunstâncias, impõe-se quase naturalmente a pergunta: que resistência foi essa, capaz de adiar por tanto tempo um encontro que parecia, de antemão, inevitável? Em Janela Indiscreta, acompanhamos a rotina monótona de L. B. “Jeff” Jefferies, fotógrafo jornalístico profissional, subitamente reduzido à inatividade em razão de uma perna engessada (consequência de um acidente ocorrido no exercício de sua profissão). Confinado ao espaço de seu apartamento, Jeff passa a alimentar um novo hábito: observar, através da janela, a vida de seus vizinhos. Esse pequeno passatempo, porém, transforma-se em uma verdadeira investigação quando ele presencia algo suspeito em um dos apartamentos ao redor. Janela Indiscreta retrata os hábitos voyeuristas de Jeff como uma metáfora para o próprio cinema, sugerindo que todos nós, espectadores, somos uma espécie de voyeur. Hitchcock faz de nós, assim como Jeff, bisbilhoteiros da vida alheia. O diretor nos coloca na mesma posição do protagonista, tornando-nos cúmplices desse gesto: vemos porque ele vê; suspeitamos porque ele suspeita. E, quando alguém duvida do protagonista, automaticamente está duvidando também de nós, espectadores. Hitchcock, desde o primeiro plano, nos coloca diante de um parti pris. Parti pris que se reduz deliberadamente ao ponto de vista único de Jeff, ponto de vista que, por sua vez, torna-se também o nosso. Não há, portanto, concessão à onisciência: os enquadramentos recusam qualquer saber que ultrapasse os limites físicos do apartamento. Tudo se organiza a partir dessa restrição fundamental. A visão dos apartamentos dos vizinhos não nos é dado em sua totalidade, mas apenas na medida em que pode ser visto, recortado e parcialmente compreendido a partir dessa posição fixa do apartamento de Jeff. Essa limitação, longe de empobrecer o filme, constitui sua própria força. A visão que temos dos outros apartamentos é incompleta, por vezes quase insuficiente; e é precisamente nessa escassez que o imaginário do espectador é convocado a intervir. O que não se vê pesa tanto quanto o que é mostrado. O espaço fora de campo, longe de ser um simples complemento, torna-se uma zona de inquietação e de projeção, onde a narrativa se prolonga invisivelmente. Assim, o parti pris inicial não é apenas uma escolha técnica, mas o fundamento estético do filme: Hitchcock não demonstra, sugere; não explica, faz ver e, sobretudo, faz supor. Eis o cinema. Olhar e descobrir que olhar é, por si só, uma forma de vertigem. Nota especial: Grace Kelly está impecável nesse filme!